
Meus caros leitores,
Começou um novo ano para o Lumina: este é o nosso primeiro encontro de 2026. E como em todos os recomeços é tempo de olhar para o futuro e refletir como as novas ideias que estão se delineando no horizonte das Compras Públicas, podem impactar o nosso presente, trazendo novas possibilidades estratégicas para gestão de negócios e licitações.
Antes de mais nada, vale lembrar que o mercado de Compras Públicas representou 16% do PIB brasileiro em 2025, chegando a mais de 1 trilhão de reais em valores homologados. Ou para ser mais precisa: R$1.105 trilhão, que representaram 1.036.217 contratações neste período. São números bastante auspiciosos e que devem ser superados neste novo ano.
O que está por trás destes números é bastante revelador, mostrando-nos a potência do Estado, enquanto empreendedor. Sim, a palavra empreendedorismo, na maioria das vezes, é usada de forma restrita, focada no desenvolvimento de pequenos e médios negócios privados. Mas aqui, quando falo do Estado-Empreendedor, transcendo as barreiras e miro na capacidade que ele tem de ir além e fomentar o desenvolvimento econômico e social, ao direcionar seus esforços para que as Licitações e Compras Públicas não apenas cumpram seu papel primordial de abastecimento, mas atinjam um outro patamar, o de estimular, através da inovação estratégica, uma nova realidade macroeconômica.
Porque o futuro das Compras Públicas também se constrói com visão de longo prazo.
O Estado-Empreendedor e a nova lógica das Compras Públicas
Pode parecer um tanto ambiciosa esta mudança, onde as Compras Governamentais ganham uma nova configuração e um importante papel transformador. No entanto, aqui vai um spoiler: isto já está se tornando realidade, quando o public procurement adquire mais robustez e incorpora a inovação tecnológica como um de seus principais pilares estratégicos.
Ao redor do mundo e inclusive no Brasil, o poder público passa a enxergar as Compras Governamentais e Licitações com outros olhos, porque começa a perceber que não basta apenas fazer compras de bens e serviços mais eficientes, é preciso ser integrativo e inovador, para transformar o mercado público e toda a sua cadeia de suprimentos.
A análise estratégica de grandes bases de dados públicos (big data analytics), especialmente quando conectada ao uso sistêmico de Inteligência Artificial, tema já explorado em reflexões como governar com inteligência artificial: quando o Estado aprende a enxergar de novo, tem proporcionado, a meu ver, uma “revolução silenciosa” que, aos poucos, irá se estender, do Governo para os estados até chegar aos municípios; e só uma questão de tempo.
Mariana Mazzucato e a Economia da Inovação no setor público
Quero compartilhar com vocês aqui, a visão de Mariana Mazzucato, uma das pensadoras e economistas mais influentes na cena global, que tem uma produção intelectual bastante rica e com muita visibilidade, inclusive no Brasil. Toda a sua obra está voltada para o desenvolvimento do Estado Inovador-Empreendedor e seu impacto na geração de mais valor e novas oportunidades, no âmbito socioeconômico e da preservação ambiental. Um dos questionamentos mais relevantes que Mariana nos faz é sobre a capacidade dos governos de orientar o futuro de suas economias, através das Compras Públicas.
As pesquisas que a ítalo-americana Mariana Mazzucato tem realizado, enquanto professora de Economia da Inovação e de Valor Público na University College London (UCL) e fundadora do prestigiado UCL Institute for Innovation & Public Purpose (IIPP) tem influenciado governos e instituições ao redor do mundo. Basicamente, porque a proposta de Mazzucato é coerente e nos conduz para uma realidade transformadora, onde o fluxo financeiro advindo das Compras Públicas, possa ser direcionado para o bem-estar coletivo.
Segundo esta nova ótica, desenvolvida por Mariana, as Compras Públicas adquirem uma nova configuração, pois passam a considerar outros pontos nevrálgicos, além do abastecimento:
Missão
As Licitações e Compras Governamentais se voltam para solucionar problemas complexos, como a descarbonização e transição energética, saúde preventiva e outros temas relacionados ao desenvolvimento socioeconômico coletivo. É o que a pesquisadora define como Economia de Missão.
Risco Compartilhado
O Estado investe em soluções inovadoras e tecnologias emergentes e, o mais importante, compartilha os riscos inerentes com o setor privado.
Desenvolvimento Sustentável
As práticas ESG permeiam toda a cadeia de abastecimento governamental, valorizando iniciativas que estimulem negócios sustentáveis e o crescimento de pequenos negócios, dos mais variados segmentos e nichos.
Quando o Estado compra inovação, ele transforma mercados
Daí vem o conceito de Economia da Inovação, que instiga o uso intensivo de tecnologias, movimento que também vem sendo analisado sob a ótica de organismos internacionais, como mostra a discussão sobre como a OCDE vê o futuro da IA nos governos e o impacto no mercado público, que trabalhem em prol de compras públicas mais ágeis, éticas e transparentes, que por sua vez “realimentem” as sociedades e seus contribuintes, sempre valorizando este ciclo tão positivo.
O Governo tem outro papel de destaque, quando assume o seu pioneirismo e adota novas tecnologias, comprando em primeira mão produtos, serviços e soluções inovadores e tecnológicos, que acabam desenvolvendo novos segmentos de mercado público e privado. Alguns exemplos interessantes sobre o pioneirismo estatal: adoção do GPS, ainda no início dos anos 90, para uso em satélites ou Curitiba que em 2012, foi a primeira cidade a adotar prontuários eletrônicos e telemedicina na rede pública, criando o programa e-Saúde.
Pode ser um mix imbatível, se o conceito de Estado Inovador-Empreendedor se tornar uma prática, que de forma direta ou indireta, incentive a iniciativa privada a desenvolver produtos, serviços e soluções ainda mais inovadores, do ponto de vista de seu uso, eficácia e custo. Dá para imaginar o impacto que isto teria sobre as Compras e Licitações Públicas?
Dois exemplos de Estado Inovador-Empreendedor na prática
Exemplos sempre são mais eficazes do que as palavras, porque têm o poder nos mostrar como as teorias se concretizam e podem ser implantadas em diferentes realidades. Destaco aqui, dois cases bem diferentes, sobre o Estado Inovador-Empreendedor:
Case Digilocker – Índia
É possível um país com mais 1,46 bilhão de habitantes e toda as suas complexas idiossincrasias desenvolver uma plataforma de governança digital que emite, armazena, certifica e verifica documentos, como identidade, carteira de habilitação, diplomas, entre muitos outros? Em 2015, o Ministério de Eletrônica e Tecnologia da Informação (MeitY) iniciou este projeto, de longo prazo, que ainda hoje está em evolução, através do seu plano de atualizações periódicas.
O alcance e a complexidade da plataforma indiana Digilocker são impressionantes. Empresas privadas do setor de tecnologia, educação, transporte e financeiro trabalham de forma integrada; um sistema de procurement único no mundo, dada a sua extensão e peculiaridades, alimenta de forma recorrente esta solução governamental.
Case Dinamarca Verde
Os indicadores e objetivos de sustentabilidade dinamarqueses são surpreendentes, até mesmo quando comparados a outros países escandinavos: atingir uma redução de 70% na emissão de gases de efeito estufa até 2030. Se pensarmos que estamos há apenas 04 anos deste objetivo, o que foi realizado até o momento para que isso se concretize? Mais uma vez, o conceito do Estado Inovador-Empreendedor entra em cena, através do Programa Dinamarquês de Desenvolvimento e Demonstração de Tecnologias Energéticas (EUDP) que financia iniciativas privadas, desenvolvendo um “procurement verde” voltado para inovações energéticas, como o Bifrost, que desenvolve soluções sustentáveis para a captura e armazenagem de CO2, no Mar do Norte. Entre os fornecedores do projeto Bifrost, encontram-se a Schwenk, empresa global, de origem alemã, que atua no segmento de cimento e construção e a Total Energies, francesa e com foco em biocombustíveis.
O que essa transformação sinaliza para o futuro das Compras Públicas
Como vocês sabem, gosto de instigar novas discussões sobre temas que estão surgindo no nosso horizonte e que, assim espero, sejam incorporados às melhores práticas de negócios públicos. Creio que ainda teremos mais edições do Lumina sobre o Estado Inovador-Empreendedor e como a colaboração estratégica e tecnológica pode reconfigurar as Compras Públicas e o seu procurement, em termos globais e locais. Fica aqui este ponto de reflexão para os nossos próximos encontros.
Este é um caminho que irá nos proporcionar não só a expansão das Compras Governamentais, beneficiando a todas as empresas que atuam neste mercado, literalmente gigante (impossível esquecer os 1.105 trilhões homologados em 2025, que apresentei logo no início deste texto), mas também possibilitar uma transformação extremamente positiva de nossas realidades.
Mais luz! Até o nosso próximo Lumina.
Daniela Corrêa Triñanes
Quer conhecer mais sobre Mariana Mazzucato? Sugiro a leitura de O Estado Empreendedor: Desmascarando os Mitos do Setor Público Versus Setor Privado (Companhia das Letras – 2013). Ah, ia me esquecendo, Mariana esteve no Brasil, neste Carnaval, a convite do Ministério da Cultura.
FAQ: empreendedorismo e compras públicas
A seguir, reunimos algumas perguntas estratégicas para reforçar a leitura do artigo e ampliar sua cobertura para buscas orgânicas e buscas por IA.
O que é empreendedorismo em compras públicas?
É a visão de que o Estado pode usar seu poder de compra não apenas para abastecimento, mas também para estimular inovação, desenvolvimento econômico e soluções de impacto coletivo.
Quem é Mariana Mazzucato?
Mariana Mazzucato é uma economista reconhecida internacionalmente por defender o papel ativo do Estado na inovação, na geração de valor público e no direcionamento estratégico das economias.
Como o Estado empreendedor impacta as licitações públicas?
Ele amplia o papel das licitações, que passam a apoiar inovação tecnológica, sustentabilidade, compartilhamento de risco e transformação de mercados.
Compras públicas podem gerar inovação?
Sim. Quando bem estruturadas, funcionam como alavanca para desenvolvimento tecnológico, sustentabilidade e criação de novos mercados.
Quer continuar acompanhando reflexões sobre o futuro das compras públicas, inovação e transformação do mercado governamental? Explore os demais artigos da editoria Lumina no Blog Sol.