
Queridos leitores,
Ao longo de 2025, a série Lumina se dedicou a um exercício pouco praticado no mercado público: pensar com profundidade os caminhos da transformação das compras públicas em um ambiente que exige velocidade.
Vivemos um tempo marcado por decisões rápidas, acúmulo massivo de dados e tecnologias que prometem respostas imediatas para problemas históricos. Nesse contexto, a reflexão deixou de ser um luxo intelectual e passou a ser um ativo estratégico, não como oposição à ação, mas como condição para que ela seja mais consciente, responsável e sustentável.
As edições do Lumina publicadas neste ano não buscaram oferecer soluções prontas. Buscaram algo mais fundamental: bons enquadramentos. Porque, no setor público, muitas ineficiências não surgem da ausência de ferramentas, mas da forma como os problemas são compreendidos, estruturados e enfrentados.
Este texto é um convite para revisitar essas reflexões e, principalmente, para explicitar o fio que conecta os temas abordados ao longo de 2025.
Porque, antes de avançar, é preciso aprender a enxergar.
Quando colaborar deixa de ser intenção e passa a ser estrutura
A colaboração sempre esteve presente no discurso das compras públicas. Fala-se em diálogo com o mercado, escuta qualificada e participação social. Durante muito tempo, porém, esses conceitos permaneceram no plano da intenção: bem formulados nos discursos, mas pouco incorporados à estrutura decisória.
Na edição “Colaboração como pilar da transformação nas compras públicas”, o Lumina propôs uma mudança de perspectiva: colaborar não fragiliza controles nem flexibiliza regras, fortalece a decisão pública.
Experiências internacionais analisadas no artigo mostram que ambientes colaborativos bem desenhados ampliam a capacidade do Estado de planejar, contratar e entregar. Quando diferentes atores compartilham informações, aprendizados e visões de futuro, o processo licitatório deixa de ser apenas um rito formal e passa a operar como ferramenta estratégica de política pública.
No contexto brasileiro, persistem desafios relevantes: fragmentação institucional, silos de informação, receio de exposição e uma cultura historicamente avessa ao diálogo estruturado. Ainda assim, sinais claros de amadurecimento começam a surgir. Iniciativas que promovem troca qualificada entre gestores, especialistas e fornecedores mostram que colaboração não é improviso, é método.
Colaborar, portanto, não significa abrir mão de responsabilidade. Significa reconhecer que, diante da complexidade crescente das políticas públicas, ninguém governa sozinho. A inteligência coletiva passa a ser um diferencial competitivo do próprio Estado.
Governar com Inteligência Artificial exige mais do que eficiência
Se a colaboração nos obriga a repensar como decidimos juntos, a Inteligência Artificial nos provoca a refletir sobre como decidimos melhor.
Em “Governar com Inteligência Artificial: quando o Estado aprende a enxergar de novo”, o ponto de partida é claro: IA não é apenas automação, é uma nova camada de percepção institucional.
Os ganhos potenciais são evidentes. A capacidade de processar grandes volumes de dados, identificar padrões, antecipar riscos e apoiar decisões pode ampliar a produtividade e a responsividade da gestão pública. Mas esses avanços também introduzem dilemas que não podem ser ignorados.
Automatizar decisões públicas sem critérios claros pode reforçar vieses, reduzir transparência e diluir responsabilidades. Por isso, falar de IA no governo é, antes de tudo, falar de governança algorítmica, explicabilidade e limites bem definidos entre automação e julgamento humano.
O conceito de Estado cognitivo, apresentado no artigo, não propõe um Estado que delega decisões à máquina, mas um Estado que aprende a enxergar melhor usando tecnologia para ampliar sua capacidade analítica sem abdicar de seus princípios.
Nesse cenário, maturidade institucional não está em adotar IA rapidamente, mas em adotá-la com critério, ética e consciência de impacto.
O fio que conecta as reflexões do Lumina em 2025
Ao revisitar as edições publicadas ao longo de 2025, torna-se evidente que colaboração e Inteligência Artificial não são temas isolados. Eles revelam um movimento mais amplo: a busca por maturidade institucional nas compras públicas.
Maturidade para compreender que:
- decisões complexas exigem múltiplos olhares;
- dados não substituem pensamento crítico;
- tecnologia não elimina responsabilidade humana;
- eficiência sem governança cria novos riscos.
Essas reflexões apontam para um modelo de gestão pública menos reativo e mais estratégico, um modelo que reconhece que governar é um exercício coletivo, informado por dados, sustentado por princípios e orientado por propósito.
O que 2025 deixa como aprendizado para o mercado público
Se este ano nos ensinou algo, é que o futuro do mercado público não será definido apenas por novas leis, plataformas ou promessas tecnológicas. Ele será definido pela qualidade das decisões e pela capacidade de aprender com elas.
A série Lumina segue com esse compromisso: lançar luz onde normalmente há pressa, ruído ou simplificação excessiva. Porque, em um ecossistema cada vez mais complexo, enxergar melhor continua sendo um dos ativos mais valiosos para quem atua no setor público.
Em 2026, seguimos aprofundando esse olhar, acompanhando transformações, tensionando certezas e ampliando a reflexão sobre os caminhos do mercado público. Para quem entende que pensar com método é parte essencial de governar e participar desse ecossistema, o Lumina continua sendo um espaço de reflexão contínua.
Mais luz, hoje e sempre.
Daniela Triñanes
