Fernanda Bertasi é Gente Que Brilha
Fernanda é uma executiva com sólida trajetória na indústria farmacêutica, com foco em licitações, acesso e incorporação de tecnologias no SUS. Atuou por 10 anos na SulAmérica e, depois,...
26/05/2026
Nesta 28ª edição do Gente Que Brilha, apresentamos a trajetória de Fernanda Bertasi, executiva com mais de duas décadas dedicadas ao setor de saúde, conectando ciência, gestão, e impacto social. Sua atuação percorre diferentes dimensões do sistema de saúde — do setor pagador à indústria farmacêutica — sempre guiada por um propósito claro: garantir que a inovação em saúde chegue, de fato, às pessoas que precisam dela.
Com vocês, a gestora pública em entrevista exclusiva para o Blog SOL.
1Quem é Fernanda Bertasi? Conte um pouco sobre você…
Sou uma mulher de 50 anos que vive muitos papéis ao mesmo tempo — e tenho muito orgulho de todos eles. Sou filha, irmã, esposa, mãe, cunhada, tia e avó de uma neta de quatro patas que enche a nossa casa de alegria.
Essas dimensões da minha vida não estão separadas da minha carreira. Pelo contrário: elas moldam a forma como eu enxergo o mundo, como tomo decisões e, principalmente, como lidero. Antes de qualquer cargo ou posição, eu sou alguém que gosta genuinamente de gente.
Minha trajetória sempre foi pautada por pessoas. Ensinar, desenvolver e liderar sempre fizeram parte da minha essência — seja como professora, seja como executiva. Acredito profundamente que conhecimento só ganha sentido quando é compartilhado e quando gera transformação real na vida das pessoas.
Sou formada em Psicologia, depois me especializei em Marketing e, ao longo do tempo, fui mergulhando cada vez mais no universo dos negócios, mas sempre na saúde.
Iniciei minha carreira na SulAmérica, uma das principais operadoras de saúde do país, onde permaneci por dez anos. Foi ali que tive meu primeiro contato com os grandes desafios estruturais do sistema de saúde brasileiro e comecei a compreender a complexa relação entre financiamento, acesso e cuidado.
Depois dessa fase, migrei para a indústria farmacêutica — um ambiente onde tive a oportunidade de aprender, crescer e construir uma trajetória em empresas globais como Roche, Schering-Plough, Pfizer, Shire, United Medical e, mais recentemente, liderando a operação brasileira da Pint Pharma.
Ao longo dessa jornada, fui me especializando em um dos grandes desafios da saúde contemporânea: como garantir que medicamentos inovadores, especialmente para doenças raras e condições complexas, cheguem às pessoas que realmente precisam deles.
Hoje inicio um novo capítulo profissional em uma empresa global de biotecnologia, mantendo o mesmo propósito que sempre guiou minha trajetória. Porque, no fundo, o que mais me move é saber que trabalho em um setor onde temos a oportunidade real de mudar a vida das pessoas.
Seja formando profissionais, compartilhando conhecimento ou ajudando a construir caminhos para que tratamentos inovadores cheguem aos pacientes, essa sempre foi — e continua sendo — a minha grande paixão.
E talvez por isso eu acredite tanto que liderança não é sobre ocupar posições. Liderança é abrir caminhos para que outras pessoas também cresçam, se desenvolvam e brilhem.

2Highlights da carreira – quais foram os pontos altos de sua carreira? Que fatos relevantes e resultados alcançados você gostaria de destacar?
Ao longo da minha carreira tive a oportunidade de participar de projetos que realmente fizeram diferença na vida das pessoas, e isso é algo que sempre me marcou muito.
Um dos projetos mais especiais foi o Projeto Curimatá, no Piauí, em uma cidade a cerca de 800 km de Teresina, que concentra um número muito expressivo de pacientes com uma doença genética rara. Nesse projeto conseguimos ir muito além do tratamento médico. Criamos um centro de acolhimento para a comunidade, com iniciativas de inclusão social: cursos básicos de informática, acesso à internet, capacitação profissional e atendimento odontológico.
Foi um projeto que integrou cuidado, dignidade e oportunidades. Sempre gosto de contar essa história porque ela mostra como a saúde pode transformar vidas de maneira muito mais ampla.
Outro grande pilar da minha trajetória é ensinar e desenvolver pessoas. Eu realmente acredito que conhecimento precisa ser compartilhado. Eu nunca paro de aprender, mas tenho um prazer enorme em transmitir o que aprendo, formar talentos e ajudar pessoas a crescerem.
Quem já trabalhou comigo sabe que essa é uma característica muito forte minha: desenvolver equipes, abrir caminhos e preparar profissionais para que tenham carreiras brilhantes.
Também considero um marco importante da minha carreira ter chegado à liderança de uma indústria farmacêutica no Brasil, um setor que historicamente foi — e em muitos aspectos ainda é — predominantemente masculino.
Quando comecei minha trajetória, praticamente não existiam mulheres liderando operações no país. Fazer parte dessa mudança e ocupar espaços de liderança é algo que me traz muito orgulho.
Mas, sem dúvida, um dos aspectos que mais me motivam na minha trajetória é o impacto no acesso a medicamentos pelo sistema público de saúde. Trabalhei muitos anos com processos de licitação de medicamentos no setor público, e ver medicamentos inovadores chegarem ao SUS e alcançarem milhares de pacientes é uma conquista gigantesca. Quando um tratamento passa a ser disponibilizado em larga escala para quem realmente precisa, você entende que todo o trabalho estratégico, regulatório e de acesso valeu a pena.
Também vivi momentos de grande aprendizado como líder. Quando assumi minha primeira posição como Gerente Geral, a empresa passava por um processo de aquisição internacional e, pouco tempo depois, enfrentamos a pandemia de Covid-19.
Foi um período extremamente desafiador: equipes trabalhando remotamente, médicos totalmente focados na emergência sanitária e mudanças profundas na dinâmica do setor. Conduzir a operação nesse contexto exigiu muita adaptação, resiliência e capacidade de tomar decisões em cenários de grande incerteza.
Hoje olho para essa trajetória com muito senso de propósito. Porque, no fim do dia, o que mais me orgulha não são apenas os cargos ou projetos em si, mas saber que, ao longo do caminho, conseguimos abrir portas para pacientes, desenvolver pessoas e contribuir para que o sistema de saúde funcione melhor.
3Desafios – a vida profissional e a vida pessoal são feitas de desafios, aqueles que nos tornam melhores, mais fortes e mais capazes. Quais foram os mais marcantes da sua trajetória e que você gostaria de compartilhar conosco?
Minha trajetória profissional foi muito marcada por desafios que, olhando hoje, foram fundamentais para me tornar a líder que sou.
Quando comecei minha carreira, a indústria farmacêutica era — e em muitos aspectos ainda é — um ambiente predominantemente masculino. Naquela época praticamente não existiam mulheres ocupando posições de liderança como gerente geral ou presidente de farmacêuticas no Brasil.
As mulheres que queriam crescer precisavam lidar com barreiras culturais muito claras. Havia situações de machismo explícito, desigualdades salariais e momentos em que era necessário provar constantemente a própria competência. Lembro de perceber, por exemplo, que homens no mesmo cargo que eu recebiam salários maiores, mesmo exercendo exatamente as mesmas responsabilidades. Essas experiências incomodam, claro, mas também acabam fortalecendo a nossa determinação de seguir em frente e abrir espaço para outras mulheres.
Quando olho para a minha trajetória hoje, tenho muito orgulho de ver o quanto avançamos. Ainda há muito a conquistar, mas é inegável que muitas mulheres ajudaram a transformar esse cenário.
Outro grande desafio da minha carreira aconteceu quando assumi minha primeira posição como Gerente Geral. Naquele momento, a empresa em que eu trabalhava havia acabado de ser adquirida por um grupo canadense. A nova controladora ainda estava começando a entender a complexidade do sistema de saúde brasileiro, que é extremamente particular — especialmente quando falamos de processos públicos, como licitações e compras governamentais.
Grande parte do meu trabalho naquele momento foi explicar como o Brasil funciona. A dinâmica das compras públicas, por exemplo, pode ser bastante imprevisível: você vence uma licitação, mas isso não significa necessariamente que aquela venda acontecerá imediatamente ou no volume esperado. Traduzir essa realidade para uma matriz internacional foi um aprendizado enorme para todos nós.
E, como se isso não bastasse, pouco tempo depois veio a pandemia de Covid-19.
De repente, tínhamos uma operação inteira funcionando remotamente, equipes comerciais sem poder visitar médicos e um sistema de saúde completamente voltado para o enfrentamento da emergência sanitária. No meu caso, um dos principais produtos era justamente voltado para infectologia, e os médicos estavam integralmente concentrados no coronavírus.
Foram dois anos extremamente desafiadores, em que precisei conduzir a integração cultural com a matriz internacional, manter a operação funcionando e, ao mesmo tempo, liderar equipes em um cenário de enorme incerteza.
Hoje olho para esse período como uma grande escola de liderança. Ele me ensinou muito sobre resiliência, capacidade de adaptação e, principalmente, sobre a importância de manter as pessoas engajadas e unidas mesmo nos momentos mais difíceis.

4Inspiração – o que te inspira, o que te motiva a cada dia, no exercício de suas atividades profissionais?
A minha maior fonte de inspiração sempre foram os pacientes. Ao longo da minha carreira tive a oportunidade de ouvir relatos de pessoas que estão em tratamento com medicamentos com os quais trabalhei. Quando você escuta essas histórias de perto, entende de forma muito concreta o impacto que a saúde pode ter na vida de alguém.
Já ouvi pacientes contarem que conseguiram assistir ao casamento de uma filha, conhecer um neto que estava para nascer ou simplesmente voltar a ter qualidade de vida depois de anos convivendo com uma doença grave. São histórias profundamente humanas, que nos lembram que, por trás de cada decisão no setor de saúde, existem vidas reais sendo impactadas.
Esses momentos reforçam diariamente o propósito do meu trabalho.
Trabalhar na área da saúde é ter a oportunidade de contribuir para que tratamentos cheguem às pessoas que precisam deles. E quando você percebe que aquilo que faz pode transformar a trajetória de alguém, a motivação para continuar fazendo o melhor possível se renova todos os dias.

5Impacto – Como você enxerga o impacto das licitações na saúde pública brasileira?
As licitações são absolutamente fundamentais para o funcionamento da saúde pública no Brasil. É por meio delas que o Ministério da Saúde, os estados, os municípios e os hospitais públicos realizam suas aquisições de medicamentos e tecnologias em saúde. Sem esse mecanismo, simplesmente não existiria uma forma estruturada, transparente e sustentável de realizar essas compras.
A licitação é o instrumento que garante concorrência, transparência e racionalidade no uso dos recursos públicos. Ela permite que o governo organize suas compras e mantenha o equilíbrio financeiro necessário para sustentar um sistema de saúde do tamanho e da complexidade do SUS.
Ao mesmo tempo, acredito que esses processos precisam evoluir continuamente. A saúde é uma área dinâmica, com inovações surgindo o tempo todo, e é importante que os mecanismos de compra pública consigam acompanhar essa evolução para que os tratamentos cheguem aos pacientes com mais rapidez e eficiência.
Ao longo da minha carreira trabalhei muitos anos com processos de licitação e acesso no setor público, e posso dizer que, quando esses mecanismos funcionam bem, eles têm um impacto gigantesco: permitem que medicamentos inovadores alcancem milhares de pacientes em todo o país.
No fim das contas, é uma engrenagem essencial para que o sistema público de saúde consiga cumprir seu principal objetivo: garantir acesso a tratamento para quem precisa.

6Projetos atuais – atualmente qual é o projeto ao qual você tem se dedicado mais? Quais são os desafios mais relevantes deste projeto para você como gestor? Acredita que ele trará mudanças estratégicas significativas para a sua área, sua equipe e para a empresa, como um todo?
Neste momento estou vivendo uma fase de transição profissional, mas curiosamente os projetos que marcaram meu último ciclo e os que se abrem agora têm uma conexão muito clara entre si: ampliar o acesso a tratamentos inovadores para pacientes com doenças raras.
Nos últimos anos estive profundamente envolvida no processo de incorporação de uma nova tecnologia para o tratamento da Hemoglobinúria Paroxística Noturna (HPN) no sistema público de saúde. A HPN é uma doença rara, grave e potencialmente fatal, e trabalhar para que esses pacientes tenham acesso a terapias inovadoras foi um dos projetos mais intensos e significativos da minha trajetória recente.
Foi um trabalho que exigiu dedicação praticamente integral: diálogo constante com especialistas, interação com diferentes áreas do Ministério da Saúde, participação em discussões técnicas e acompanhamento muito próximo de todo o processo de avaliação da tecnologia. Em muitos momentos isso significou estar frequentemente em Brasília, acompanhando de perto cada etapa necessária para que essa incorporação pudesse avançar.
Agora, no novo capítulo profissional que se inicia, o foco permanece essencialmente o mesmo: trabalhar para que tecnologias inovadoras possam chegar de forma mais estruturada e sustentável aos pacientes brasileiros, especialmente no contexto das doenças raras.
Os desafios são muitos. Estamos falando de tratamentos altamente inovadores, de grande impacto clínico, mas que também exigem modelos sofisticados de avaliação, financiamento e implementação dentro do sistema público de saúde.
Como gestora, meu papel é justamente ajudar a construir essas pontes entre ciência, sistema de saúde e pacientes.
Se eu tivesse que resumir minha trajetória em uma palavra, provavelmente seria acesso. Porque, no fim das contas, todo o esforço estratégico, regulatório e institucional só faz sentido quando se traduz em algo muito concreto: o tratamento chegando a quem realmente precisa.

7Nova Lei de Licitações – Quais são as principais mudanças trazidas pela nova lei, e, na sua opinião, quais delas são as mais impactantes? Por que você considera essas mudanças tão significativas?
A nova Lei de Licitações representa um passo importante na modernização das compras públicas no Brasil. Ela substituiu legislações anteriores e trouxe mudanças relevantes que trouxeram mais transparência nas licitações, além de tornar os processos mais eficientes e alinhados com a realidade atual das contratações públicas.
Na minha visão, algumas mudanças são especialmente importantes. Uma delas é a inversão das fases do processo, em que a análise das propostas passa a ocorrer antes da habilitação das empresas. Isso tende a tornar as licitações mais rápidas, porque a documentação passa a ser exigida apenas dos participantes melhor classificados.
Outro avanço relevante é a digitalização dos processos, com a preferência por licitações eletrônicas e a criação do Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), que amplia muito a transparência e a visibilidade das contratações do governo.
Também destaco a valorização do planejamento das compras públicas e a ampliação dos critérios de julgamento, que passam a considerar não apenas o menor preço, mas também aspectos como melhor técnica, maior retorno econômico e outros fatores que podem melhorar a qualidade das contratações.
Como toda mudança regulatória, ainda existe um período de adaptação. Mas, se bem implementada, acredito que a nova lei pode tornar os processos mais transparentes, mais previsíveis e mais eficientes — algo fundamental especialmente em áreas sensíveis como a saúde pública.
8Uma frase, um pensamento especial – para finalizar, compartilhe com a gente uma frase, um pensamento ou algo do gênero que faz você vibrar e tem um significado especial para você.
Existe uma ideia que sempre me acompanha e que eu costumo repetir muito para as minhas equipes. Eu sempre digo: “Nós trabalhamos para melhorar a saúde dos brasileiros.”
Pode parecer uma frase simples, mas para mim ela carrega um significado muito profundo. Quando você trabalha no setor da saúde, cada decisão que toma pode impactar diretamente a vida de alguém — pode significar mais tempo, mais qualidade de vida, mais esperança para uma família inteira.
Essa é uma mensagem que eu sempre levo para os meus times, em reuniões, em town halls e nas conversas do dia a dia. Porque quando a gente se lembra do propósito maior do nosso trabalho, tudo ganha outra dimensão.

No fim das contas, o que realmente me move é saber que, de alguma forma, estamos contribuindo para melhorar a saúde da população brasileira. E quando você tem essa consciência, cada esforço passa a fazer muito mais sentido.

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