
Meus caros leitores,
vivemos em uma realidade cada vez mais complexa, veloz e conturbada. Enquanto escrevo este Lumina, algum conflito geopolítico pode estar surgindo, escalando ou, felizmente, chegando ao fim. Mudam os atores, mudam os interesses, mudam os contextos, mas permanece uma certeza: estamos atravessando uma das fases mais transformadoras das últimas décadas.
A velocidade das mudanças tecnológicas, as disputas por competitividade, a reorganização das cadeias globais de suprimentos, a emergência climática e a busca por novos modelos de desenvolvimento estão redefinindo a forma como governos, empresas e sociedades enxergam o futuro.
Não há como prever exatamente para onde todos esses movimentos nos conduzirão. O que podemos fazer é compreender os sinais, interpretar as tendências e desenvolver a capacidade de agir sobre elas.
É justamente nesse contexto que acredito ser importante refletirmos sobre o papel das Compras e Licitações Públicas.
Durante muitos anos, elas foram percebidas predominantemente como processos administrativos necessários para garantir o funcionamento da máquina pública. Essa visão, embora correta em parte, tornou-se insuficiente diante dos desafios contemporâneos.
Quando lembramos que as Compras Públicas movimentam aproximadamente 16% do PIB brasileiro, torna-se evidente que estamos falando de algo muito maior do que procedimentos de aquisição.
Estamos falando de uma força econômica capaz de direcionar investimentos, estimular inovação, fortalecer cadeias produtivas, impulsionar setores estratégicos e influenciar o desenvolvimento de um país.
Em outras palavras, estamos falando de uma ferramenta de transformação.
O procurement estratégico mobiliza empresas, universidades, centros de pesquisa, governos e cidadãos. Ele cria demanda, sinaliza prioridades, reduz incertezas e contribui para a construção de ambientes favoráveis à inovação.
Talvez por isso, em diversas partes do mundo, as Compras Públicas tenham deixado de ser vistas apenas como mecanismos operacionais e passado a ocupar um espaço cada vez mais relevante nas estratégias nacionais de desenvolvimento.
O Estado com Propósito
No último Lumina conversamos sobre o conceito de procurement orientado para missão – uma abordagem que vem ganhando força em diferentes países e que tem entre seus principais defensores nomes como Mariana Mazzucato.
Sua proposta é provocativa e ao mesmo tempo bastante pragmática.
Ela nos convida a enxergar um Estado que não se limita a corrigir falhas de mercado, mas que também atua como articulador, direcionador e impulsionador de transformações.
Um Estado com Propósito.
Um Estado capaz de mobilizar recursos, coordenar esforços e criar condições para enfrentar desafios complexos que dificilmente seriam resolvidos por um único ator isoladamente.
Ao longo dos últimos anos, vimos exemplos concretos dessa lógica em diferentes partes do mundo. A corrida por vacinas durante a pandemia, os investimentos em transição energética, as estratégias de fortalecimento tecnológico e as políticas voltadas à soberania industrial demonstram que governos continuam exercendo um papel decisivo na construção do futuro.
Mas será que conceitos como propósito, inovação e empreendedorismo realmente se encaixam no universo das Compras Públicas?
Acredito que sim. Mais do que isso. Acredito que eles serão cada vez mais necessários.
Quem acompanha esta coluna sabe que gosto de provocar reflexões. Não porque eu tenha respostas definitivas, mas porque acredito que novas perguntas costumam abrir espaço para novas possibilidades.
E talvez uma das perguntas mais relevantes deste momento seja justamente esta:
Qual deve ser o papel das Compras Públicas em um mundo que busca simultaneamente mais competitividade, mais sustentabilidade, mais inovação e mais inclusão?
Responder a essa questão exige que abandonemos algumas visões tradicionais. Exige que deixemos de enxergar as Compras Públicas apenas como um mecanismo de controle de gastos e passemos a reconhecê-las também como instrumento de política pública, política econômica e política de desenvolvimento.
Se o Estado deseja acelerar a inovação, fortalecer determinados setores produtivos, ampliar sua capacidade tecnológica ou impulsionar uma transição sustentável, ele precisa transformar intenção em ação. E poucas ferramentas possuem um poder de mobilização comparável ao das Compras Públicas.
Quando utilizadas estrategicamente, elas ajudam a definir prioridades nacionais, direcionar investimentos, criar mercados e estimular novos modelos de desenvolvimento. Talvez seja justamente nesse ponto que o conceito de Estado com Propósito encontre uma de suas expressões mais concretas.
Não na teoria. Mas na prática. Não apenas nos discursos. Mas nas decisões. Não apenas nas intenções. Mas nos investimentos que orientam o futuro.
A Nova Indústria Brasil (NIB)
É nesse contexto que surge a Nova Indústria Brasil.
Lançada em 2024, a Nova Indústria Brasil (NIB) representa uma das mais importantes iniciativas de política industrial do país nas últimas décadas. Seu objetivo vai muito além da ampliação da capacidade produtiva nacional. A proposta é construir uma nova etapa de desenvolvimento baseada em inovação, sustentabilidade, transformação digital, aumento da competitividade e fortalecimento da soberania tecnológica brasileira.
Quando ouvimos a palavra “reindustrialização”, muitas vezes pensamos em fábricas, máquinas e linhas de produção. Mas a nova reindustrialização possui um significado muito mais amplo. Ela envolve inteligência artificial, ciência de dados, automação, digitalização, bioeconomia, transição energética, novos materiais, biotecnologia, infraestruturas inteligentes, sistemas conectados e modelos produtivos sustentáveis.
Estamos falando de uma transformação estrutural que afeta praticamente todos os setores da economia – e que, inevitavelmente, também transformará as relações entre governos, empresas e sociedade.
A Nova Indústria Brasil incorpora muitos dos princípios associados ao conceito de Estado com Propósito. Ela parte do entendimento de que desafios complexos exigem coordenação, visão de longo prazo, capacidade de articulação, escolhas e, sobretudo, direcionamento estratégico.
Talvez o maior desafio da próxima década não seja apenas reindustrializar o Brasil. Talvez seja reindustrializá-lo com propósito: construindo competitividade sem abandonar a sustentabilidade, promovendo crescimento sem abrir mão da inclusão, avançando tecnologicamente sem perder de vista o desenvolvimento humano.
Esse equilíbrio não é simples. Mas é justamente nele que reside a oportunidade.
As seis missões da Nova Indústria Brasil: mais do que prioridades, uma agenda de transformação
Ao observarmos as seis missões estruturantes da Nova Indústria Brasil, é importante evitar uma leitura superficial.
À primeira vista, elas podem parecer apenas uma lista de áreas prioritárias para investimentos públicos e privados. No entanto, quando analisadas em conjunto, revelam algo muito mais relevante: uma tentativa de reposicionar o Brasil diante das transformações econômicas, tecnológicas e ambientais que estão redesenhando o cenário global.
Mais do que definir setores estratégicos, essas missões indicam quais capacidades o país considera essenciais para sua competitividade futura – e é justamente por isso que elas interessam diretamente às empresas, aos governos e aos profissionais que atuam no universo das Compras Públicas.
1. Cadeias industriais sustentáveis e digitais
A primeira missão talvez seja a mais transversal de todas. Seu objetivo é estimular a adoção de tecnologias digitais, automação, inteligência de dados e práticas sustentáveis em diferentes segmentos da economia.
Historicamente, as vantagens competitivas eram construídas por meio de escala produtiva, acesso a recursos ou localização geográfica. Hoje, cada vez mais, elas dependem da capacidade de coletar dados, transformá-los em inteligência e utilizá-los para tomar melhores decisões. Nesse contexto, a transformação digital deixa de ser uma iniciativa isolada e passa a ser um requisito para competitividade.
Para o mercado público, essa missão traz implicações igualmente relevantes. Governos que desejam contratar soluções mais eficientes precisarão compreender tecnologias emergentes, desenvolver novas competências e criar ambientes capazes de estimular a inovação sem abrir mão da transparência e da segurança jurídica. Em outras palavras, a transformação digital não acontecerá apenas dentro das empresas – ela também precisará acontecer dentro das estruturas públicas.
2. Complexo Econômico-Industrial da Saúde
Poucos setores evidenciaram de forma tão clara a importância da capacidade produtiva nacional quanto a saúde. A pandemia deixou lições importantes sobre dependência tecnológica, vulnerabilidade das cadeias globais de suprimentos e necessidade de fortalecer capacidades locais de pesquisa, desenvolvimento e produção.
A segunda missão da Nova Indústria Brasil surge exatamente nesse contexto. Seu foco está no fortalecimento de áreas como biotecnologia, biofármacos, equipamentos médicos, medicina diagnóstica, inovação farmacêutica e soluções digitais aplicadas à saúde. Mais do que uma agenda industrial, trata-se de uma agenda de resiliência nacional.
Para o mercado público, essa missão possui relevância especial. A saúde representa uma das maiores categorias de compras governamentais do país. Consequentemente, decisões relacionadas ao procurement têm potencial para influenciar investimentos, acelerar inovação e fortalecer ecossistemas produtivos inteiros. Ao estimular a produção nacional de tecnologias estratégicas, o país reduz vulnerabilidades, amplia sua autonomia e cria condições mais favoráveis para enfrentar desafios futuros.
3. Infraestrutura, mobilidade e logística
Toda transformação econômica depende de infraestrutura. Esse é um princípio que permanece válido independentemente da época ou do estágio de desenvolvimento de um país.
A diferença é que a infraestrutura necessária para o século XXI não se limita a rodovias, portos e ferrovias. Ela inclui conectividade, digitalização, automação, integração de sistemas e inteligência operacional.
A terceira missão reconhece essa realidade. Seu objetivo é ampliar a eficiência logística, fortalecer a mobilidade, modernizar sistemas e reduzir gargalos que historicamente impactam a competitividade brasileira. Para as Compras Públicas, esse movimento representa uma mudança significativa: projetos de infraestrutura tornam-se cada vez mais complexos, integrando componentes tecnológicos, ambientais e sociais que exigem novas formas de planejamento e contratação. A qualidade das decisões passa a depender não apenas da execução das obras, mas da capacidade de gerar valor ao longo de todo o ciclo de vida dos projetos.
4. Transição energética e descarbonização
Existe um consenso crescente de que a competitividade futura estará profundamente associada à sustentabilidade – não apenas por razões ambientais, mas também por razões econômicas. Mercados globais estão redefinindo critérios de investimento, consumo e financiamento. Organizações que ignorarem essa transformação correm o risco de perder espaço, relevância e acesso a oportunidades.
A quarta missão responde a esse cenário. Ela contempla investimentos relacionados a biocombustíveis, biometano, hidrogênio de baixa emissão, eletrificação industrial, eficiência energética e redução de emissões em processos produtivos.
Mas talvez seu aspecto mais relevante seja outro: ela sinaliza que sustentabilidade deixou de ser um tema periférico e passou a ocupar o centro das estratégias de desenvolvimento. Para governos e empresas, isso significa incorporar novos critérios de avaliação, novas métricas e novas formas de mensurar valor. O procurement sustentável deixa de ser tendência e passa a se consolidar como prática necessária.
5. Tecnologias digitais e soberania tecnológica
Durante muitos anos, a discussão sobre competitividade esteve associada principalmente à produtividade industrial. Hoje, ela está cada vez mais ligada à capacidade tecnológica. A disputa global deixou de acontecer apenas em torno da produção de bens – ela ocorre também em torno da produção de conhecimento, de dados, de algoritmos, de plataformas, de capacidade computacional e de inovação.
Nesse contexto, a quinta missão assume importância estratégica. Seu foco inclui inteligência artificial, internet das coisas, semicondutores, hardware estratégico, plataformas digitais, big data industrial, cibersegurança e infraestrutura tecnológica.
Mais do que incentivar setores específicos, essa missão busca fortalecer capacidades consideradas essenciais para a soberania nacional. Em um mundo orientado por dados, a verdadeira vantagem competitiva não está apenas em possuir tecnologia – está em transformar informação em inteligência, e inteligência em decisão. Esse talvez seja um dos maiores desafios das próximas décadas, tanto para empresas quanto para governos.
6. Bioeconomia, florestas e procurement sustentável
Poucos países possuem uma combinação de biodiversidade, recursos naturais e potencial econômico comparável à brasileira. Ao mesmo tempo, poucos países carregam responsabilidade tão significativa diante dos desafios ambientais globais.
A sexta missão procura responder a essa realidade. Seu objetivo é estimular cadeias produtivas sustentáveis, fortalecer a bioeconomia, desenvolver soluções biotecnológicas e promover modelos de crescimento compatíveis com a preservação dos ecossistemas.
Mais uma vez, estamos diante de algo que vai além da indústria. Estamos falando de um novo paradigma econômico – um paradigma no qual desenvolvimento e sustentabilidade deixam de ser tratados como forças opostas e passam a ser compreendidos como dimensões complementares. Para as Compras Públicas, isso significa ampliar critérios de avaliação, incorporar aspectos socioambientais às decisões e estimular mercados capazes de gerar valor econômico e impacto positivo simultaneamente.
O futuro será construído por quem souber conectar
Ao observarmos essas seis missões em conjunto, percebemos que existe um elemento comum entre todas elas: conexão. Conexão entre setores, entre tecnologias, entre conhecimento e execução, entre governos e empresas, entre desenvolvimento econômico e impacto social.
Talvez a grande oportunidade desta década esteja justamente na construção dessas pontes – pontes entre inovação e gestão pública, entre competitividade e sustentabilidade, entre inteligência e ação, entre propósito e resultado.
Ao longo dos últimos anos, venho defendendo que as Compras Públicas possuem potencial para ocupar um papel muito mais estratégico do que tradicionalmente lhes atribuímos. Continuo acreditando nisso.
Se utilizadas de forma inteligente, elas podem deixar de refletir apenas a realidade do país e passar a influenciar ativamente o país que desejamos construir.
Talvez o verdadeiro desafio da próxima década não seja apenas reindustrializar o Brasil. Talvez seja decidir qual Brasil desejamos construir enquanto o reindustrializamos.
Um Brasil mais inovador. Mais sustentável. Mais competitivo. Mais humano. E, acima de tudo, mais conectado ao propósito que escolhemos perseguir.
Ao concluir este texto, fico com a sensação de que, apesar das incertezas que nos cercam, existem inúmeras possibilidades à nossa frente.
E, como diz a música, “eu já estou com o pé nesta estrada, qualquer dia a gente se vê, sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã…”
Mais luz, hoje e sempre!
Daniela Corrêa Triñanes
Quer aprofundar a reflexão sobre o papel das Compras Públicas na inovação, no empreendedorismo e na construção de novas realidades para o mercado público? Leia também o nosso artigo sobre empreendedorismo e compras públicas: uma nova realidade à nossa espera
FAQ: Nova Indústria Brasil e compras públicas estratégicas
A seguir, reunimos perguntas estratégicas para reforçar a leitura do artigo e ampliar sua cobertura para buscas orgânicas, People Also Ask e buscas assistidas por IA.
1. O que é a Nova Indústria Brasil?
A Nova Indústria Brasil é uma política industrial lançada em 2024 para estimular inovação, sustentabilidade, transformação digital, competitividade e fortalecimento produtivo no país. A iniciativa organiza prioridades estratégicas para orientar investimentos, capacidades tecnológicas e desenvolvimento industrial em áreas consideradas relevantes para o futuro da economia brasileira.
2. Qual é a relação entre compras públicas e reindustrialização?
As compras públicas podem apoiar a reindustrialização quando são usadas de forma estratégica para criar demanda, estimular inovação, fortalecer cadeias produtivas e reduzir incertezas para fornecedores. Nesse contexto, o poder de compra do Estado deixa de ser apenas operacional e passa a contribuir para políticas de desenvolvimento econômico.
3. O que são compras públicas estratégicas?
Compras públicas estratégicas são contratações planejadas para gerar valor além da aquisição de bens e serviços. Elas podem apoiar objetivos como inovação, sustentabilidade, eficiência, inclusão produtiva, desenvolvimento regional, soberania tecnológica e fortalecimento de setores considerados prioritários para políticas públicas.
4. Como a Nova Indústria Brasil pode impactar fornecedores do governo?
A Nova Indústria Brasil pode influenciar prioridades de contratação, critérios técnicos, demandas por inovação, sustentabilidade e soluções digitais. Para fornecedores, isso reforça a importância de acompanhar políticas públicas, analisar editais com visão estratégica e entender quais setores podem ganhar relevância nas compras governamentais.
5. Por que o procurement sustentável é importante nas compras públicas?
O procurement sustentável permite que contratações públicas considerem impactos ambientais, sociais e econômicos ao longo do ciclo de vida dos bens e serviços. Essa abordagem pode estimular mercados mais responsáveis, apoiar metas de descarbonização e conectar decisões de compra a estratégias de desenvolvimento sustentável.
Como empresas podem se preparar para esse novo cenário?
Empresas podem se preparar monitorando oportunidades, acompanhando políticas industriais, analisando editais com profundidade e fortalecendo sua inteligência comercial. Também é importante mapear tendências de contratação, requisitos técnicos emergentes e setores priorizados por programas públicos relacionados à inovação, sustentabilidade e tecnologia.
Quer continuar acompanhando reflexões sobre o futuro das compras públicas, inovação e transformação do mercado governamental? Explore os demais artigos da editoria Lumina no Blog Sol.